"O Amor é Lindo... Porque Sim!", de Vicente Alves do Ó

quarta-feira, março 02, 2016


A convite da Act4all e da NOS Audiovisuais fui à antestreia do mais recente filme do realizador e argumentista Vicente Alves do Ó, O Amor é Lindo... Porque Sim!. O mítico Cinema São Jorge, na Avenida da Liberdade, recebeu-nos com um cocktail patrocinado pela Licor Beirão e pela Delta, e acolheu-nos para o tão aguardado visionamento desta longa-metragem.

Saí da Sala Manoel de Oliveira já sem conseguir respirar e as primeiras palavras que ressoaram no hall foram entoadas por Carminho: "quero esquecer-te, acredita, mas cada vez há mais vento". À medida que a trama se ia desenrolando diante dos meus olhos, sentia-me cada vez mais despida; dei por mim a sentir que o Vicente tinha conseguido ouvir as minhas mais humildes preces, ler os meus pensamentos mais profundos, retirado as memórias guardadas nas gavetas do coração. O vento esvoaçava e os apontamentos que evidenciavam a sua presença constante deixaram-me completamente siderada: o poema declamado por Márcia Cardoso, as andorinhas coloridas que pousaram nas paredes da casa de Amélia e (detalhe arrebatador) o chapéu gypsy usado pela personagem principal numa das últimas cenas do filme. Amélia é um reflexo da mulher que vive em mim há um ano e, talvez, dentro de cada uma de nós. A páginas tantas, é quase impossível distanciar a alma da magnetizante Inês Patrício, aluna finalista do curso da Escola Profissional de Atores e protagonista desta comédia romântica à portuguesa.


Mas quero que percebam a narrativa que escolheu Lisboa como cenário. No dia em que celebra 24 anos, Amélia é deixada pelo namorado de longa data, Mauro (João Maria). O seu mundo desmorona-se, a luz ao fundo do túnel parece distanciar-se e a sombra do passado toma conta do seu destino. Mas o tempo encarrega-se sempre de nos ensinar que nunca estamos sozinhas (mas, vá, um passo de cada vez). Para além de ficar sem o emprego no quiosque de cachorros quentes em Alvalade, Melinha perde então o rasto ao companheiro de oito anos. As mensagens e os telefonemas deixam de ser retribuídos, a ausência de respostas no momento em que mais precisa de alento consome-a, a mágoa e a revolta apoderam-se de si. Para agravar a sua situação, a mãe Gigi (a brilhante e inigualável Maria Rueff) ganha a vida como vidente e a irmã Cátia (Carolina Serrão) é uma atriz no desemprego. Amélia começa então a frequentar o consultório de Dalila (Ana Brito e Cunha), uma psicóloga verdadeiramente alucinada e mal resolvida, que em nada ajuda na sua recuperação.


Parece um quadro demasiado negro, não é verdade? Podemos "mexer no destino e mudar a sorte", como no fado de Ana Moura? Claro que sim! Um acaso conduz Amélia a uma tasca moderna (a acolhedora Cantina da Lx Factory, em Alcântara), gerida por Madalena (Marta Mirada, vocalista dos OqueStrada), e a linha da vida trama-lhe uma partida. A patroa ouve-a cantar, uma voz que preenche todos os espaços vazios deste restaurante castiço, e este seu talento acaba por trazer-lhe dúvidas, certezas, amores e paixões esvoaçantes. A sua beleza chama à atenção de dois homens, que se apaixonam perdidamente por ela e, enfeitiçados, não descansam enquanto não levam a sua avante. Não podiam ser mais diferentes nas suas vivências, dividindo assim o coração da nossa menina-mulher: Ruben (Diogo Leite), jogador de futebol que faz sucesso dentro das quatro linhas, e Bubu (Jaime Baeta de Almeida), um jovem forcado e de boas famílias.


Em momento algum pensamos que estamos diante de um triângulo amoroso, uma vez que Amélia tem receio de voltar a entregar-se a alguém. A verdade é que nós não mandamos no nosso coração e enquanto não encerramos o capítulo anterior, não conseguimos avançar para deixar uma nova história começar. Entretanto, Amélia descobre que o ex-namorado prepara já o casamento com outra mulher e fica de rastos. Aprendemos, a seu tempo, que a luz que nos guia nunca se apaga, mesmo que, na maior parte das vezes, nos pareça esmorecer. A noite de Lisboa esconde um brilho incandescente e é nas paredes da cidade que um homem misterioso (Nuno Pardal) escreve cartas de amor, intensas na sua simplicidade. Chegaremos a saber quem é esta sombra notívaga, que parece bombear todas as artérias do coração e fazer com que Amélia volte a acreditar no amor? Deixo-vos com esta questão a pairar no ar. Por vezes, aquilo que procuramos está mesmo diante dos nossos olhos. Ou, ao virar da esquina, eternizado num graffiti.

À semelhança da obra-prima de Ruben Alves, A Gaiola Dourada, esta longa-metragem de Vicente Alves do Ó está pincelada de momentos de humor. Nunca demasiado fáceis, sempre tão nossos, portugueses de raça. Perdemos o norte com Amélia, mas também é com ela que aprendemos a ser espíritos livres. O argumento podia roçar a banalidade, mas está longe de assim ser. Pelo contrário, o guião torna-se demasiado grandioso quando constatamos que esta é a vida que passa por nós. Todos os dias. Despertei a vossa curiosidade? Pois então quero ver todos a correrem para a sala de cinema no dia 10!


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O AMOR É LINDO… PORQUE SIM!
Estreia dia 10 de março
Realização e argumento de Vicente Alves do Ó
Com Inês Patrício, João Maria, Carolina Serrão, Maria Rueff, Jaime Baeta de Almeida, 
Ana Brito e Cunha, Sílvia Rizzo, Diogo Leite, André Nunes, Nuno Pardal, entre outros.

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